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A ditadura do relativismo: quando a verdade é proibida

«Estamos construindo uma ditadura do relativismo que não reconhece nada como definitivo e que tem como medida última somente o próprio ego e seus desejos.» — Cardeal Ratzinger, Missa «Pro Eligendo Romano Pontifice», 18 de abril de 2005. Quarenta e oito horas depois, era eleito Papa. A frase não foi acidente: foi programa.

1. O que é o relativismo e por que ele não se sustenta

O relativismo é a afirmação de que não existem verdades morais ou religiosas objetivas e universalmente vinculantes; toda afirmação de verdade é relativa ao sujeito, à cultura ou ao tempo histórico. É a ideologia dominante das universidades ocidentais, das mídias liberais e do discurso político contemporâneo.

O problema lógico do relativismo é que ele se destrói a si mesmo. «Toda verdade é relativa» é uma afirmação que pretende ser absolutamente verdadeira — não relativa à cultura de quem a professa. Se for verdadeira, é falsa. Se o relativismo é correto universalmente, então é uma verdade objetiva que refuta seu próprio conteúdo. Não é jogo de palavras: é a contradição performativa que o relativismo carrega no centro.

Pragmaticamente, o relativismo é também incoerente: nenhuma sociedade pode funcionar sem alguns valores absolutos. A proibição de estupro não é «relativa à minha cultura»: é obrigatória. Os julgamentos de Nuremberg punindo crimes nazistas não foram revogados por «respeito à cultura alemã da época»: julgaram com base num direito natural que transcende o positivo. Todo relativista que chama algo de «injusto» invocar implicitamente um padrão que transcende o meramente subjetivo.

«O homem que não acredita em nada acreditará em qualquer coisa.»
Atribuído a G.K. Chesterton

2. A resposta cristã: a Verdade tem nome

A resposta cristã ao relativismo não é o fundamentalismo — a certeza crispada que recusa o questionamento. É a confiança na Revelação: que Deus, que é a própria Verdade subsistente, se comunicou de modo definitivo em Cristo, e que essa comunicação foi confiada a uma Igreja dotada do auxílio do Espírito Santo para a transmitir sem erro ao longo dos séculos.

João Paulo II, em Fides et Ratio (1998), articulou isso com precisão: a fé e a razão não são rivais, mas parceiras na busca da verdade. A razão sem fé deriva para o ceticismo e o niilismo; a fé sem razão deriva para o fideísmo e o fundamentalismo. A síntese cristã — que Agostinho realizou em relação ao platonismo e Tomás ao aristotelismo — sempre soube integrar o que a razão descobre com o que Deus revela.

O relativismo, por paradoxo, é a posição menos tolerante: ao negar que existe verdade objetiva, ele impede qualquer conversa racional sobre ética, política ou religião. Se não há verdade, não há argumento; há apenas poder. E o poder, invariavelmente, não é relativista: ele impõe.

3. A crise da identidade cultural europeia

O relativismo não é apenas problema teórico: tem consequências civilizacionais. Uma Europa que não pode afirmar que sua tradição cristã é verdadeira e boa não pode também defender que vale a pena preservar qualquer aspecto dessa tradição contra alternativas. Se todas as culturas são iguais, a catedral de Notre-Dame não vale mais que um shopping center; o Gregoriano não vale mais que música de computador; a família natural não vale mais que qualquer arranjo afetivo.

Essa incapacidade de afirmar o próprio é o maior desafio da Igreja no Ocidente contemporâneo. Não vem de fora: vem de dentro, de uma geração de católicos que interiorizou o relativismo cultural sem perceber que estavam abandonando a capacidade de testemunhar. Um cristão que não está convicto de que Cristo é o Senhor não evangeliza: distribui «valores» — e «valores» sem fundamento são apenas preferências.

A resposta não é crispação apologética nem nostalgia medieval: é o que Bento XVI chamou de «proposta»: convidar o contemporâneo a encontrar Cristo como o que satisfaz plenamente o desejo de verdade, beleza e bondade que toda pessoa carrega. A apologética não é ataque; é convite. Mas um convite que pressupõe que quem convida está convicto do que oferece.

Referências e Fontes

  1. Bento XVI, PapaHomilia «Pro Eligendo Romano Pontifice», 18 abr. 2005 — «ditadura do relativismo»
  2. João Paulo II, PapaFides et Ratio (1998) — sobre a relação entre fé e razão contra o ceticismo moderno
  3. Lewis, C.S.Mere Christianity (1952) — refutação popular do relativismo moral
  4. Kreeft, Peter / Tacelli, RonaldHandbook of Christian Apologetics (1994) — argumento da lei moral natural
  5. Ratzinger, JosephIntroduction to Christianity (1968) — fé cristã no contexto do relativismo moderno
  6. Catecismo da Igreja Católica§§ 1956-1960 — sobre a lei moral natural como fundamento objetivo da ética